Uma breve (e lúcida) conversa sobre o jogo “Baleia Azul”

por | 27/04/2017 | 4 Comentários

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Se for pra falar de um assunto tão delicado, tão sério, que seja então pra tratá-lo com respeito, pra trazer acolhimento e ajuda. Não precisamos de mais sensacionalismo, nem cenas chocantes ou detalhes sórdidos. Precisamos de ajuda, e foi com esse propósito que decidi escrever.

O que é o “jogo”?

A Baleia Azul foi o nome dado ä um jogo suicida, circulando nas mídias sociais e chegando até as portas virtuais de crianças, adolescentes e jovens adultos. Neste jogo são dadas missões auto flagelantes que os participantes têm que realizar para conseguirem aprovação do “moderador”do grupo e seguir para próxima etapa, sendo a última o suicídio.

É claro que o tal do jogo assustador ganhou repercussão depois dos primeiros suicídios, e trouxe a população para a primeira etapa na resolução de um problema social como esse: o caos. Misturaram-se os interessados em ganhar dinheiro com vozes aflitas de pais e mães, misturaram-se os jornais querendo ganhar leitores com os educadores preocupados em como agir na prevenção. E no meio de tudo isso, perdemos os esclarecimentos e olhares que precisávamos sobre o assunto.

Antes de começar com minhas reflexões e ideias sobre o assunto eu preciso dizer não sou psicóloga. Sou uma educadora, preocupada com a saúde mental de pais e filhos, buscando e oferecendo ferramentas para que os pais possam se conectar com a paternidade e maternidade e vivê-la de forma real, oferecendo o que de melhor tiverem. Estou preocupada, antes de mais nada, com o desenvolvimento de nossas crianças, sua saúde mental e segurança.

Pra começar a conversar com você sobre esse assunto eu preciso contar um trecho, uma lembrança, da minha adolescência. Lembro-me de ter ouvido na escola, eu tinha por volta de 10 ou 12 anos, alguém dizer que drogas davam um “barato ruim” e por isso não deveriamos usá-las. Ao chegar em casa eu disse para minha mãe o que tinha ouvido e a resposta dela me chocaria (naquela idade e hoje ainda, por motivos diferentes): “Filha, não acho que as drogas sejam “ruins”. Se fossem ruins não haveriam tantas pessoas usando. Acho que devem trazer sensações “boas”, mas a questão é entender que as consequências do uso de drogas é que são muito ruins”. Aquilo foi tão sincero e tão honesto que me marcou profundamente. Eu nunca usei drogas, mesmo tendo tido acesso. Eu fiz uma escolha e a fiz sabendo porquê.

Essa pequena lembrança me traz alguns aprendizados que senti necessidade de partilhar com vocês e que talvez nos ajudem a ter um pouco mais de serenidade sobre o assunto. O problema do envolvimento das nossas crianças e dos nossos jovens com as drogas, com os crimes ou um jogo suicida começa bem antes do que imaginamos. Começa quando faltamos com:

 

As bases para não termos que nos preocupar com drogas reais ou virtuais como “Baleia Azul”

Honestidade na relação com os filhos. É imprescindível tê-la. Aos poucos vamos falando sobre todas as coisas com eles. Conforme percebemos o amadurecimento das crianças podemos ir fazendo perguntas pra entender como eles têm se apropriado de situações e acontecimentos. “O seu amigo te xingou de … Como você sentiu? O que acha que esse seu colega estava sentindo? O que ele quis dizer? O que conseguiu dizer pra ele? Você acha que você é isso que ele disse que você é? Você precisa da minha ajuda pra resolver isso?”.  Não subestime seu filho ou filha. Desenvolver a capacidade de falar e questionar as coisas que lhes acontecem, por mais sensíveis que lhes sejam, traz perspectiva e criticidade. Aos poucos eles vão entendendo o que são e o que não são, ganhando maturidade e conhecimento de si pra fazer escolhas.

Afeto e diálogo. Pra que ele não precise buscar na arena das mídias sociais a falsa sensação de aprovação e desaprovação que lhe desenhem a autoestima. Amar seu filho significa lhe dedicar tempo, afeto, diálogo e respeito nas relações. Isso fará com que ele se sinta seguro para além das oscilações e aceitabilidade do grupo. Jantar junto, conversa com olhos nos olhos, abraços, respeito e não depreciação no momento em que você estiver nervoso, apoio e liberação de pressão e expectativas.

Liberar-nos do nosso preconceito e enclausuramento. Aquela velha ideia, que persegue mais pessoas do que 2017 nos permite, de que psicólogos são ajuda para pessoas loucas (ou que não tem Deus no coração, ou que não tem melhores amigos e todos os absurdos que já ouvi). Nos fechamos para que ninguém conseguisse estourar a bolha de representação social do facebook (aquela que diz que estamos sempre felizes, realizados e bem sucedidos). No nosso isolamento e na nossa falta de cuidados coletivos foram surgindo esses mofos nos cantos das paredes na qual não tocamos. Se você acha que precisa de terapia para lidar com as exigências e o espelho que a paternidade e maternidade trazem, cuide de você! Se você acha que seu filho se beneficiaria de um acompanhamento, procure!

Transformar nosso sistema escolar sobrecarregado. Preso em uma “grade curricular”obsoleta, cheio de jogos políticos, tentando ao máximo não sucumbir a falta de estrutura, alimentando crianças com fome e tentando dar conta de um ensino básico. Como poderíamos ainda lhe exigir que sozinho desse conta , de forma vitoriosa, de mais essa questão que é social? Tenho certeza que os professores receberam instrução para falar sobre o assunto, vários projetos foram realizados pelo bem da burocracia. Mas na maioria dos casos não acho que houve de fato conexão. Não é possível nas condições em que a escola está, mesmo que eu ainda aplauda e admire professores que estejam tentando.

Entender o novo virtual. É o nosso espaço de caos sem muita moderação. Está aí, estampado para nós as nossas violências, os nossos medos, os nossos risos, as nossas neuroses, psicoses e por aí vai. Tudo sem moderação. Não é uma visão catastrófica, é só um apontamento de que o espaço virtual ainda é novo e estamos sem saber lidar muito bem com ele. No começo é natural, mas será que estamos falando sobre os sintomas sociais que despertam na internet?

Pra que sigamos construindo nossas estruturas sociais e coletivas juntos, com muito amor e acolhimento. Se quiser trocar figurinha comigo é só mandar e-mail para [email protected]

Pamela Greco

Pedagoga e especialista em desenvolvimento infantil

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4 Respostas para “Uma breve (e lúcida) conversa sobre o jogo “Baleia Azul””

  1. Bruno Beraldo 28/04/2017 at 11:57 #

    Excelente leitura!
    Adorei a abordagem que você deu ao assunto. Sempre com muita responsabilidade e compaixão.
    Parabéns 😀

    • Pamela Greco 01/05/2017 at 09:35 #

      Era bem isso que eu queria: Responsabilidade e compaixão. Obrigada pela caminhada juntos <3

  2. Carina 30/04/2017 at 23:12 #

    Eu ainda não tinha visto este post e eu achei fantástico! Parabéns!

    Bjus

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