O que é preciso para proteger a infância.

por | 03/02/2017 | Sem comentários

Photo Credit: Morguefile

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Quando eu encarei o blog Pais que Educam em janeiro de 2017 eu me perguntei: “Ainda faz sentido?”. São três anos de caminhada, mais de 100 artigos publicados, envolvimento de colunistas/parceiros/amigos e em média 30 mil visitantes por mês além dos muitos e-mails cheios de carinho e amparo trocados entre pessoas buscando fortalecimento.

Enquanto eu me redescubro em minha carreira, em mim e traço novos caminhos, essa dúvida martela meus pensamentos incessantemente. Analisei a questão por meses, até que um acontecimento catalisou tudo que eu estava sentindo e me trouxe até aqui.

Eu estava no espaço de educação onde trabalho. Algumas crianças brincavam no playground e eu as observava. Elas estavam explorando uma forma de rolar uma bola entre todos os obstáculos do “brinquedão”, mas a bola tinha que rolar em linha reta. Não havia nenhuma criança dentro do tal brinquedão, só os pequenos que estudavam como fariam aquilo acontecer. Então eles discutiram por um tempo e fizeram a primeira tentativa. Não funcionou. Pensaram novamente e tentaram, dessa vez com êxito. Eu, educadora encantada, comemorava com eles. Eles estavam mobilizando conhecimentos espaciais complexos, além de explorar os conceitos de velocidade e direção em que lançariam a bola. Eles têm cinco anos.

Uma das professores correu até mim, olhos arregalados e disse: “Você não pode deixar eles fazerem isso”. Logo saiu “gritando” pra que eles parassem com aquilo porque era “perigoso”. Perguntei porque aquilo seria perigoso e ela respondeu que eles achariam que poderiam brincar de bola no brinquedão e outras crianças poderiam pisar na bola e cair. Em seguida todo um discurso sobre segurança no playground. Eu entendi de onde ela falava e acolhi sua preocupação. Após ouvi-la eu disse “Já conversamos sobre isso, eu e eles, e eles não brincarão com a bola se houverem crianças dentro do brinquedão. As crianças dentro do brinquedão são a restrição do experimento.” Percebi que ela não se sentia confortável com aquilo. Como somos um time eu optei por respeitar a preocupação dela, expliquei para as crianças que teríamos que explorar outros espaços de outras formas.

Em outro caso, uma criança de um ano e meio morreu em uma creche familiar. Especula-se que tenha sido enforcada em uma corda de persiana. Veja, eu tive uma creche familiar e é claro que eu sabia das minhas responsabilidades pela preservação da segurança das crianças. Não tenho como avaliar o caso do incidente citado. Não há provas de negligência da educadora e especulo que tenha sido um acidente horrível que destruiu a vida dos pais e marcou para sempre a vida da educadora.

Tudo aquilo me fez pensar, e muito! Quando falamos sobre proteger a infância, do que estamos falando? Para os pais, isso pode significar:

  1. Ouvir meu [email protected] Para que as crianças entendam que são seres importantes, se sintam valorizadas e que aprendam a comunicar suas necessidades, alegrias e desagrados. Para que aprendam a elaborar suas sensações, pensamentos, sentimentos e experiências.
  2. Entender as necessidades do meu filho e ajudá-lo a conhecer o próprio corpo: Não resumir tudo em um pacote chamado “birra”. Quando fazemos isso, negligenciamos o aspecto da necessidade não expressa. Se eu não aprendo a dizer que estou com fome, como manifestarei isso? Com choro, com grito e com humor alterado.
  3. Ter meu tempo para descansar e parceiros na educação. Educar uma criança não é tarefa simples, e partilhei isso nesse post. Por vezes você se sentirá esgotado, culpado, cansado e querendo um tempo pra você. Você precisa e merece isso. Se lhe for possível, mobilize uma força tarefa para te ajudar.
  4. Ofertar amor. Porque é disso que a infância precisa. A segurança, a sensação de um adulto preparado e no comando da situação. Amar uma criança significa ensiná-la a confiar na vida.
  5. Ofertar possibilidades de aprendizado: Escola, espaço educativo, comunidade, praça, bosque ou qualquer que seja o lugar que escolher. Deixe que as crianças explorem seus espaços, seus corpos, seu mundo e suas possíveis intervenções.     

Aos educadores e espaços de aprendizado:

  1. Espaço apropriado para a exploração e brincadeira. Com materiais passíveis de serem explorados e não brinquedos que subestimam a capacidade das crianças de pensar.
  2. Educadores instrumentalizados. Que conheçam a infância, o desenvolvimento e suas demandas. Que saibam como diálogar com as crianças criando espaços de criação, de exploração, de atuação e partilha.
  3. Leitura. Porque é preciso que as crianças saibam interpretar o mundo, os conhecimentos produzidos e não caiam nas garras de autorias de facebook que disseminam sabe-se lá o quê.
  4. Mais diálogo, mais autoridade e menos autoritarismo. Para que as crianças entendam os fundamentos das regras de convívio, que possam diálogos e construir o conhecimento de si e do mundo.
  5. Segurança física, sem subestimar a capacidade das crianças. Não pode correr para não se machucar? Mas correr não é aprender sobre física, sobre o próprio corpo e melhorar o condicionamento físico? Se a explicação fosse não se machucar, não poderíamos nada. Aqui entra o diálogo e a preparação dos espaços. Atenção educadores, pais e mães: Todos estamos no mesmo time. Crianças se machucam, isso acontece. Se o espaço educativo ofereceu um ambiente bem estruturado e não havia 40 crianças para um(a) educador(a) cuidar, então entenda que um tombo ou outro são naturais.
  6. Segurança emocional. O espaço educativo tem que oferecer equidade de acesso ao aprendizado. Isso significa mobilizar estratégias diversas para seres humanos diversos. Isso também significa explorar os conflitos para além do “culpa dele ou dela”, mas articular o conhecimento de si próprio com o respeito ao outro. Tudo com a mediação de um adulto que se interessa por essa construção de humanidade.

A redescoberta do meu lugar é entender que o quero aqui no Canadá, no Brasil e em todos os cantos do mundo é solidificar o que estamos construindo historicamente: Valorizar e identificar a infância como tempo de estruturação das bases da humanidade. Protege-la para que ela possa ser o melhor que pode ser.

Atenção: Isso não significa não falhar. Você é um ser humano. Eu falho, tu falhas, ele e ela falham e nós…falhamos.

Pamela Greco

Pedagoga e especialista em desenvolvimento infantil

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