Precisamos falar sobre depressão pós parto

por | 08/11/2016 | 2 Comentários
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Sempre achei que o que não muda não o faz porque, pelo menos em alguma medida, está “morto”. Mas eu não esperava que as transformações que eu passaria como imigrante fossem tão intensas. Aprendi tanto sobre respeito próprio, sobre o meu lado feminino, sobre a força da mulher em outras culturas, sobre relacionamentos e amizades. Assuntos que ultrapassam o tema paternidade ou maternidade, mas que compoe em um cenário geral nosso desenvolvimento humano.

Obrigada por ainda estar aqui comigo, e obrigada pela paciência de esperar esse florescer. Eu ficarei imensamente feliz de continuar dividindo com vocês, você que está lendo agora e continua dividindo esse espaço de transformação, esses novos assuntos, as novas abordagens, meu “eu” em construção que poderá encontrar o seu “eu” em algum movimento de forma que sejamos força juntos.

Falar sobre depressão pós parto no mínimo me é estranho. Em partes eu não me sentia no direito de falar sobre isso já que nunca vivi a situação. Acontece que na última semana tivemos, aqui no Canadá, notícias de duas mulheres – entre tantas outras não noticiadas – que “acordaram” minha alma adormecida para o assunto. A primeira delas é esta aqui. Desaparecida em Vancouver, saiu de casa depois de tantos dias, quantos só ela sabe, lutando contra a depressão pós parto. Para outra mulher, notícia em inglês aqui, a alternativa foi dar fim a própria vida, na luta para sair do enclausuramento em que estava.

Não é fácil falar de depressão pós parto, mas é preciso. Em primeiro lugar eu acredito que ainda haja tabu e muita religiosidade envolvida na hora de falar de depressão, seja ela qual for. Nos entregamos pra ideia de que “se orar passa”, “isso é falta de Deus na sua vida”, “Não vamos falar disso porque se falarmos a coisa é real, não queremos que seja” ou até “Se falar disso em voz alta pode piorar”. Se você já teve depressão em algum momento da sua vida, como eu, já deve ter ouvido pelo menos um desses comentários.

A depressão, de forma geral, é muito assustadora tanto para quem a vive quanto para os familiares. É normal que queiramos fugir do assunto, mas fazer isso só está nos levando a virar as costas pra quem precisa de nós. Infelizmente ignorar ou reprimir um sentimento não faz com que ele vá embora. Ao contrário, é uma forma de adubá-lo e deixar que ele brote em ramificações inesperadas em nós.

“Você deveria estar feliz, acabou de ganhar um bebê” ou “Você está sendo ingrata, ele nasceu perfeito e você está bem”. Que mãe não ouviu isso ao manifestar desconforto? Esse é outro dos hábitos nocivos e comentários alimentadores de culpa que afundam as mulheres – nesse caso – em isolamento e angústia.

Para que eu e você nos tornemos mais fortes para oferecer suporte ou tomar coragem pra procurar ajuda, eu quis vir aqui falar sobre isso. Não vamos falar de termos técnicos, nem sou habilitada para isso, vamos falar de sinais, vamos falar de amparo, vamos falar de ajuda e acolhimento.

  • Você sente como se simplesmente não fosse capaz de ser mãe. É dificil demais e você se pergunta o tempo todo se deveria ter se tornado mãe.
  • Você se sente culpada por não ter conseguido estabelecer a “conexão” com seu bebê como acha que deveria (aquela coisa linda e romântica descrita por aí) , se pergunta se ele sente seu sofrimento e choro incessante.
  • Você está constantemente irritada e impaciente.
  • Você se sente vazia. Nada tem sabor. Nenhum sorriso, nenhum toque, nem um dia de céu azul e muito menos a proximidade do seu bebê.
  • Você se sente sem esperança, perdeu o apetite, você não se concentra e mesmo tentando seu melhor (boa alimentação, yoga, pensamento positivo) você não consegue sair dessas sensações.
  • Você talvez tenha vontade abandonar o bebê e sua família.
  • Não consegue dormir, por mais cansada que esteja.
  • Sente que perdeu sua identidade completamente e nunca mais saberá quem é.

Precisamos entender, leia quantas vezes for necessário, que depressão pós parto não é algo que ninguém escolhe. Não é “culpa” da mulher deprimida e nem tão pouco ingratidão. Trata-se de uma composição entre químicas cerebrais, contextos sociais e significações de vida. Nem todos esses sintomas são exatamente como descritos, e nem todos estarão necessariamente presentes. Quis apenas ilustrar para que “não entendedores” saibam do que estamos falando. Também não estou defendendo a medicalização imprudente alimentadora de indústrias farmacêuticas. Estou propondo toda rede de cuidados e amparo necessária.

Como [email protected] ou familiar, se faça presente. E quando se fizer presente, aqui vão algumas dicas que podem te ajudar a saber ajudar:

  • Esteja presente, mesmo no silêncio. Quando as palavras transbordarem ouça atentamente, com amor e afeto. Não tente partir para conselhos solucionadores de “problemas alheios”. Tenha compaixão e se entregue para o amparo.
  • Faça parte, não “ajude”. Esteja ali para a limpeza, para a troca da fralda, para cozinhar e para ficar com o bebê quanto tempo for preciso.
  • Dê espaço, mas tente trazer a mulher para convívios sociais. Esteja ali para que ela saia com @s [email protected], desloque-se da realidade imersiva da maternidade e encontre seu “eu”.

Lembre-se que é em comunidade que nós nos acolhemos e curamos.

Se você quer dividir sua história eu ficarei feliz em te oferecer meus braços e “ouvidos”. Se você é profissional da área de saúde e quer dividir sua experiência, entre em contato também.

Vamos nos fortalecer.

Abraços cheios de amor.

Pamela Greco

Pedagoga e especialista em desenvolvimento infantil

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2 Respostas para “Precisamos falar sobre depressão pós parto”

  1. Marina 08/11/2016 at 19:33 #

    Olá, meu nome é Marina, tenho dois filhos e tive depressão pós parto depois do nascimento do meu filho mais novo em 2014.
    Sim, precisamos(e muito!) falar sobre isso!
    Acredite não foi nada fácil, e para falar a verdade ainda não é…

    Sempre que tenho oportunidade, ou me deparo com alguma situação que remeta a depressão pós parto (DPP) eu relato minha experiencia, para que as pessoas, ou familiares, saibam que não estão sozinhos.

    O meu bebê nasceu quando minha filha mais velha tinha 2 anos e 8 meses, foi planejado pois queríamos ter filhos com idades próximas, achavamos que isso seria mais prático para nós…

    No caminho de casa, vindo da maternidade (no dia do meu aniversário), já me sentia tão triste, sem ao certo saber como seria daquele momento em diante. Baby Blues, disse a médica quando cheguei chorando ao seu consultorio, mas eu sentia que algo não estava bem comigo e minha relação com a nova situação.

    Então, quando o meu bebê fez 15 dias começou a chorar dia e noite, literalmente, chorava até para mamar no seio, eu tinha bastante leite, ele sugava bem e o ganho de peso estava normal, mas ele não conseguia mamar, chorava muito! Levamos ao pediatra, gastrologista, homeopata… e o que eu ouvia era, “normal mãe, é cólica! Evite comer isso e aquilo.. com 3 meses melhora!” Eu já não injeria nada com leite, pois minha filha mais era alergica a leite de vaca e a probabilidade dele também ser era grande… e nada de melhora.

    Nesse meio tempo as fezes dele mudaram, ficaram moles e fetidas e mesmo assim, era tudo “normal”. E fomos nós sofrendo e esperando os tão sonhados 3 meses para que aquele pesadelo terminasse. Não terminou…

    Ele comecou a não ganhar peso adequadamente, e eu comecei a perder muito peso,já não me alimentava direiro, não conseguia descançar, meu leite começou a diminuir e ele não aceitava nunhum tipo de bico de mamadeira (ainda tive que escutar que era um crime dar mamadeira, que “um dia na mamadeira era um dia a menos no seio”… críticas e recriminações), eu queria só ficar deitada e lutava muito para conseguir levantar da cama para trocar fraldas ou tentar faze-lo mamar alguma coisa… Estava extremamente irritada e impaciente com minha filha mais velha, não conseguir sentir amor pelo bebê e entrava em pânico quando meu marido saía de casa para trabalhar, pensamentos terrríveis ficavam na minha cabeça de que ia acontecer algo e ele não voltaria, o que eu iria fazer com duas crianças sozinha?

    Apareceram manchas pelo corpo e sangue nas fezes, na época usavamos forrmulas de proteína hidrolizada para minimizar possível alergia, e o choro continuava, a irrritação continuava, eu já não dormia nada, não dormia e só chorava, estava magra demais, cansada demais, triste demais, desesperada demais para me dar conta do que estava acontecendo comigo. Meus pais a sogros já são falecidos, não tenhos irmãos proximos e meu marido, não sei se não peecebeu, ou se achou qua nao era tão grave, mas não deu importancia que aquela situação estava tomando, não o culpo, ele fazia as atrefas de casa, tentava me poupar ao máximo, mas não conseguiu me dar a ajuda de que eu precisava naquele momento…

    Foi então, quando fui levar o meu bebê numa consulta na pediatra, que cuida da minha mais velha desde que ela nasceu, eu estava totalmente desequilibarada, chorando, acabada e ela olhou firme nos meus olhos e disse: “Marina, essa não é a Marina que eu conheço, você precisa de ajuda, fale com sua médica.”

    E foi o que eu fiz, ela me encaminhou ao psiquiatra, era proximo as festas de final de ano e nenhum médico do convênio queria pegar “casos novos”, então agendei consulta com o unico que consegui. Ele me atendeu, disse que não era DPP, porque eu não havia negligenciado os cuidados com o bebê, não havia tentatado matá-lo e que eu não conseguir amá-lo aos 3 meses era normal… que uma terapia com psicologo resolveria a situação.

    Voltei na genecologista, e pedi que ela cuidasse de mim, pois me conhecia a muito tempo, ela aceitou e comecei a psicoterapia e a tomar um antidepressivo leve. Tive muitas reações, mas com o tempo fui me sentindo melhor.

    Durante todo esse tempo não desisti de tentar resolver o problema do meu bebê, nada daquilo que estava acontecendo com ele era normal… e levei-o numa alergologista e ela na hora diagnosticou “alergia ao leite materno”. Sim, somos a prova viva de que existe alergia ao leite materno! Nisso meu leite estava quase secando, eu parei de amamentar e iniciamos a alimentação com uma fórmula de aminoácidos livre, importada, muito cara que conseguimos pela farmácia de alto custo. Ele foi melhorando, as reações melhoraram, os choros foram diminuindo, ele focou bem… mas tenho que dizer, em mim o “estrago” já havia sendo feito e eu estava somente começando a me recuperar…

    Iniciei meu tratamento a 2 anos, tomei o antidepressivo durante 1 ano e faço a psicoterapia até hoje e não pretendo parar, tem me ajudado muito! Quando digo que foi dificil e ainda é, é porque sinto que a relação que tive com meu filho nessa fase inicial da vidinha dele interfere na nossa relação hoje, teremos que cosntruir muita coisa juntos… As vezes pego ele no colo e digo “É filho, já passamos por muitas coisas juntos, né? Eu te amo muito!” E acredite, dizer isso de coração para ele, para mim, é uma vitória!

    O que tenho a dizer é: mães que estão passando por isso, BUSQUEM AJUDA, isso não é normal! Maridos, irmãs, irmãos [email protected], [email protected] de mulheres que estão passando por isso, AJUDEM ESSAS MULHERES, isso não é normal! Médicos, deêm ouvidos as essas mulheres, elas sabem mais que ninguem o que estão sentindo!

    Depressão pós parto não é frescura, não é apenas tristeza, não é fraqueza! DPP não é normal, é uma doença que precisa de atenção, cuidado e tratamento.

    Desculpe o texto enorme, mas essa é a minha história, sinto que ela pode ajudar outras mulheres e não se sentiresm culpadas por não conseguirem dizer “Eu te amo” aos seus bebês, isso não é normal, mas não é culpa sua e você não é menos mãe por estar doente!

    Pamela/Pais que Educam, obrigada por tocar nesse tema delicado, mas que precisa ser abordado sem tabus! Obrigada por fazer eu remexer algumas coisas aqui dentro das minha memórias… ficarei muito feliz se esse texto ajudar alguma mãezinha, uma que seja para mim já será um presente!

    Obrigada de coração!
    Marina

    #depressão #depressãopósparto #maternidade #mulheres

    • Pamela Greco 27/04/2017 at 09:24 #

      Meu imenso carinho, minha gratidão e a oferta de estar aqui pra você, sempre que precisar, nessa jornada. Obrigada pelo relato que nos faz seguir, que nos torna mais fortes pra olharmos com coragem e amor pra uma necessidade tão delicada. Por nós, sempre! Amor

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