Como a linguagem pode te aprisionar ou libertar?

por | 20/09/2016 | Sem comentários
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De modo interessante, muitos filósofos do século XVII até XIX falaram sobre linguagem. Desde Kant, passando por Arthur Shopenhauer e seu maravilhoso texto: “O mundo como vontade de representação”, Nietzsche em seu discurso sobre o tema em “Humano demasiado humano”, e posteriormente na análise do tema feita por Freud, iniciando na base da neurologia até o desembocar da psicanálise.

O mundo humano existe somente onde há linguagem. Aliás, o homem em sua existência jamais se desloca fora dela. Aqui uso o termo linguagem englobando todas as suas formas, como a música, a não-verbal, a escrita, a falada, a imagem. Tudo o que nos conecta ao mundo e nos fornece memória vem deste instrumento. Exemplifico com um trecho de Nietzsche:

“A significação da linguagem para o desenvolvimento da civilização esta que nela, o homem colocou um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou bastante firme para, apoiado nele, deslocar o restante do mundo de seus gonzos e tornar-se senhor dele. Na medida que o homem acreditou, por longos lances de tempo, nos conceitos e nomes das coisas como uma verdade eterna pensava ter efetivamente, na linguagem, o conhecimento do mundo.

O formador da linguagem não era tão modesto de acreditar que dava às coisas, justamente, apenas designações; mas antes, ao que supunha, exprimia com as palavras o supremo saber sobre as coisas.”. (Nietzsche – Humano demasiado humano)

Assim, a linguagem fornece a narrativa que fazemos de nós mesmos e das coisas do mundo. Elabora-se, através deste instrumento, os significados acerca do que é trabalho, amor, morte, família, sociedade, democracia. Mas a linguagem que utilizamos tem forma e conteúdo, por exemplo; Uma “fala” possui duas coisas: A gramática (alfabeto e ordem gramatical) e o que está nela, a memoria, o afeto, e diversos outros componentes. Isso porque quando tornamos “linguagem” algo, usamos nosso arcabouço de linguagem, ou seja, nossa memória.

Isso avança nossa reflexão sobre o tema. Além de a linguagem ser o ladrilho que colocamos na calçada da vida para nela nos deslocarmos, cada qual coloca seu ladrilho no caminho da vida como nenhum outro o faz, pois a matéria prima dele é a própria noção de mundo por ele gramaticada e temporalizada (memória).

Vou aproveitar o uso da palavra “gramática” para “falar” de algo importante que a psicanálise trouxe à luz: Geralmente nos importamos mais com a linguagem gramatical e não notamos que subjaz dentro dela uma significância de mundo. Explico-me. Existe algo poderoso por traz da linguagem de um sujeito: O modo como ele significou seu mundo o que leva ao pensamento de que a linguagem serve como norte para viver.

Nesse processo a linguagem pode aprisionar o sujeito. Mas é através dela também, aponta a técnica freudiana, que um sujeito se liberta de um traço de linguagem que faz sua consciência sofrer. Perceba neste vídeo um exemplo do que procuro me fazer entender:

Perceba a linguagem inscrita na mulher a respeito do que ocorreu e que o psicanalista detectou através da técnica: “Eu, fulana, vou fazer de minha vida um sofrimento eterno pois não posso esquecer meu filho, por se tratar de uma falta de amor a memória do filho morto.”

Veja como o analista intervêm: “Talvez você pudesse usar este sofrimento todo para se inventar novamente, pois sua vida acabou da forma como era antes, mas pode se reformular a partir deste instante”.

E você? Sabe como construiu sua linguagem de mundo? Além disso, você sabe como comunica esta linguagem aos seus pares (filhos/marido/amigos)? Claro que fará este movimento somente através de um analista, mas pergunto: Você teria coragem de descobrir qual história conta de você mesma(o).

Tire este mês para refletir sobre este tema.

Dois filmes indico este mês. Um deles provavelmente peço para que você revisite, pois o cineasta dialoga conosco através de uma trama de “ação”, o que trouxe séculos de sociedade falocêntrica, dominada e “gramaticada”pelo ideal social masculino, ao mundo contemporâneo. Mas esta mensagem não está “falada” na trama e sim em uma outra linguagem, a das metáforas visuais. Te deixo o desafio de encontrar cada uma delas. Trata-se de Mad Max: Estrada da Fúria. A este filme, não colocarei sinopse pelo simples desejo que tenho de que vocês assistam pelo exercício. Mas atente-se ao que este mundo fez com as mulheres e jovens. Abaixo um take para atiçar sua curiosidade:

Interpretação: Sociedade de classe, onde o motor do estado/ditador é o povo. Isso em um take.

A segunda indicação estará nos cinemas em Novembro. Um executivo de propaganda nova-iorquino (Will Smith) é surpreendido por uma tragédia pessoal, cabendo aos seus próprios amigos imporem um tratamento nada convencional para sua depressão. Curiosamente, a medida funciona, mas de uma maneira ainda mais incomum que o tratamento em si. Perceba como o protagonista parou de dialogar com as pessoas e iniciou um diálogo com sua própria linguagem de mundo.

Eu fico por aqui. Um excelente e produtivo mês a todos.

Artur Uchôa

CRP:06/101657 - Psicólogo Clínico que atua em vertente psicanalista. Apaixonado por filosofia e sociologia, acredita na arte cinematográfica como um instrumento para reflexão do ser humano em sociedade.

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