Os talentos perdidos

por | 17/05/2016 | Sem comentários

Photo Credit: Morguefile

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Quando eu era criança minha mãe dizia sempre sobre quanto ela gostava de sair para dançar na adolescência dela. Logo que ela teve possibilidades financeiras eu pedi que ela me colocasse na aula de dança. A minha paixão era imensa! Eu me sentia confiante, eu me sentia forte e uma alegria imensa tomava conta de mim. Cresci na época em que havia os shows da Sandy e do Júnior – Cof cof super jovem – e eu sabia todas as coreografias.

Aos sábados e domingos, lá na rua de casa, a molecada se juntava pra dançar. Nos aniversários havia sempre o tal do “bailinho”- estou piorando a minha situação te contando isso – e minha conexão com a dança só aumentava. Eu me sentia viva, sentia como se aquilo fizesse parte de mim e tinha orgulho disso. Durante a adolescência, quando tantos dos meus amigos faziam todas aquelas coisas que jovens fazem achando que são imortais, eu dançava no meu quarto com o som tão alto que nem conseguia ouvir o resto da vida acontecendo (obrigada pela paciência mãe, pai e irmãos).

Mas dança “não dá dinheiro”e eu pulei fora. Deixei aquele prazer de infância e juventude e fui ser uma pessoa séria. Passei no vestibular de universidade pública, trabalhei muito e lá pela metade do meu curso de Pedagogia eu descobri uma academia de dança ao lado de casa. A paixão, acreditem, sobreviveu aos anos e ainda morava ali naquele canto vazio de mim.

A primeira aula de retorno foi um desastre, preciso assumir. Eu fui colocada na equipe de competição porque eu trabalhava e fazia faculdade e não poderia dançar em outro momento. Enquanto meninas muito mais novas que eu saltavam, tinham flexibilidade e um equilibrio exímio, eu lutava pra ter fôlego de fazer o aquecimento. O mundo da dança não é nada receptivo. Na verdade ele é, em geral, exclusivo de uma “moçada da grana”, e os olhares de “desprezo” eram bem comuns. Os poucos que conseguem alguma visibilidade vindo de classes baixas são uma mistura de muito trabalho, com muito esforço, com uma pitada de sorte e patrocínio de alguém com olhos pra investimento.

Mesmo depois dessa aula terrível, ao chegar no carro para voltar pra casa eu chorei. Eu chorei colada no volante pensando que eu nunca deveria ter abandonado o que amava. Eu chorei porque no fundo de mim eu sabia – sei – que havia largado a minha paixão mais profunda por medo do que o mundo guardaria pra mim se eu optasse por ela.

É lógico que já “era tarde pra mim” e a vida me cobrava mais horas de trabalho e de estudo. Mas toda aula que pude fazer foi entrega minha inteira, de corpo e alma. Então depois de um ano do retorno novamente eu abandonava a sapatilha.

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Eu dividi minha história porque quero reforçar duas coisas:

O mundo de possibilidades que oferecemos para as crianças

Compoe o leque de escolhas para a vida delas. Desde as experiências nas diferentes atividades humanas até as formas pelas quais nos expressamos. O quanto nos ligamos aos nossos interesses é um misto de significados da infância (como o amor partilhado com minha mãe pela dança), o quanto podemos experimentar aquilo (nunca saberemos a sensação que aquilo nos traz se não fizermos), o quanto somos incentivados a continuar e o quanto temos de retorno daquilo (principalmente de prazer).

Lembro que quando fazia um projeto em uma escola pública eu conheci um garoto que desenhava muito bem. Coisa impressinante o talento que ele tinha. Como meu irmão (aí caçula!) tem um talento pro desenho, eu fui logo pensando nele. Um dia perguntei ao garoto da escola se ele já havia conhecido alguma galeria de arte e ele me perguntou o que era aquilo. Depois de explicar perguntei se ele havia se inspirado em algum quadrinho ou cartoonista específico, ao que ele também ficou sem entender. Comecei a levar todos os materiais que eu poderia sobre o assunto e ele os devorava. No ano em que sai da escola ele havia organizado a primeira exposição com outros talentos espalhados em outras turmas.

Outra garota que conheci tinha flexibilidade digna de Olimpíadas. Perguntei se ela conhecia ginástica olímpica e ela disse que não. Comecei a levar vídeos com gravações de olimpíadas e ela começou a conhecer as atletas brasileiras, os exercícios, as exigências e foi se aprimorando. Seu esforço era tanto que procuramos uma comunidade que treinava ginástica olímpica a baixo custo para os estudantes na cidade.

Quantas crianças estão sem conhecer seus talentos?

Quantas crianças tem oportunidade de conhecer seus talentos? Essas perguntas me nortearam a pensar que precisamos 1) ampliar nosso currículo e oferta na escola, saindo das “grades” de tradições de mercado. Que tal convidar grupos de dança pra mediar aulas nas escolas? Vamos cobrar dos governos locais investimentos, contratação e capacitação de profissionais de diferentes área para oferecerem semestres de experimentação!

2) Não quero que eu e nem você fiquemos sentados aqui acreditando que “quem luta alcança”. Que balela! Tem gente que nem tem oportunidade de saber pelo que lutar se não pela propria sobrevivência. Não quero cair no mundinho do meu umbigo de achar que se meu filho tem oportunidade de ter acesso a  essas aulas está tudo certo. É preciso pensar mais coletivamente! Nosso país está perdendo grandes talentos, grandes mentes e grandes potenciais.

3) Não quero que a gente abra mão dos prazer. Eu já vivi em tempos de depressão e isso só me ensinou, apesar de eu ter que me lembrar sempre, os riscos de matar o prazer do cotidiano. Pelo atrevimento de ousar, eu te convido a experimentar coisas novas já. E peço que me ajude na luta pra que as crianças tenham acesso desde cedo de conhecerem e testarem seus talentos.

Pamela Greco

Pedagoga e especialista em desenvolvimento infantil

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