Quando chega um irmão, o que muda?

Photo Credit: Mariana de Favari Kikuchi

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Às vezes (sempre) me pego contemplando meus filhos, tentando entender o relacionamento deles, admirando o carinho, amor, companheirismo, atenção que eles dedicam um ao outro (dentro do possível).

Bianca quando acorda já pergunta pelo “Tato”, maneira carinhosa que ela chama o irmão desde começou a falar. Vinicius chama a irmã para brincar o tempo inteiro, e tem a maior paciência do mundo (na maioria das vezes) quando ela tira os brinquedos da mão dele. Inclusive ele aprendeu a desviar a atenção dela rs, quando ela quer o que ele está na mão, ele mostra outro, e ela troca sem problemas. Eles brincam juntos no parquinho, brincam juntos em casa, se escondem, correm, comem um ao lado do outro e muitas vezes adormecem juntos, segurando a mão do outro, como que para ter a certeza que dali não vão sair.

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Eu tenho um irmão mais novo, tenho inúmeras memórias desde a infância até hoje de situações e sentimentos que vivenciamos juntos. E, independente de qualquer coisa, seja boa ou ruim, sabemos que nossa relação é permanente, que nunca estaremos sozinhos no mundo, pois temos alguém com quem dividimos as nossas histórias, que conhece não apenas nossos maiores medos e inseguranças, mas também nossas ambições, nossos desejos, nossos sentimentos mais íntimos. Não existem ex-irmãos, ser irmão ou irmã é uma condição vitalícia e, passaremos com ele ou ela mais tempo do que com qualquer outra pessoa.

Fiquei pensando como esses laços se formam e a importância que eles têm em nossas vidas, e me peguei a pesquisar alguns textos e achei idéias/conceitos muito bacanas, que merecem ser compartilhadas. Afinal, muitas pessoas tem dúvidas quanto à ter ou não o segundo filho, então vamos falar sobre a importância do irmão (laço fraterno) na nossa vida.

Muito da maneira como educamos nossos filhos vem das boas e más lembranças que temos dos nossos pais, pois, através delas, projetamos nas crianças as nossas expectativas. Outros fatores como gênero, diferença de idade e temperamentos também facilitam ou dificultam o relacionamento entre os irmãos.

Pensando nas nossas crianças, quando chega um irmão(ã) é um momento de grande mudança, visto que ele deixa de ser o centro das atenções e vai precisar reorganizar seu ‘mundinho’ para adequar e inserir o mais novo.

“Cada um de nós nutre a fantasia de ser alguém único, de ser o único a contar para os outros e no mundo. Abandonar essa idéia é difícil, mas necessário para viver entre os outros.” (Ruffo, 2003: 46).

Disputas entre irmãos são algo comum, e são importantes para que eles aprendam a ganhar e a perder, mas essas mesmas disputas também promovem alianças, ensinam a dividir, a compartilhar e solidarizar-se (Britto, 2002). Essa solidariedade é uma coisa muito presente em casa entre o Vinicius e a Bianca. Um não pode ver o outro chorar que já quer saber o porquê e quer tentar ajudar.

Bianca muitas vezes foi acalmar o irmão que estava chorando por ter levado alguma bronca, fazendo carinho, devolvendo algum brinquedo ou simplesmente sentando ao lado dele e fazendo companhia.

Muitas vezes tomo cuidado para que o Vi não se anule perante a Bianca, visto que, por se sentir responsável como irmão mais velho, ele acaba abrindo mão das coisas para vê-la feliz, ou evitar que eu dê broncas nela, etc. Um exemplo: Bianca tirou um brinquedo da mão dele, sem pedir, simplesmente por tirar, querendo chamar a atenção. Fui conversar com ela e explicar que não é assim que fazemos, que ela tem que pedir o brinquedo para o “Tato” para que ele lhe entregue. Por levar uma ‘bronca’, Bianca começa a chorar, então o Vinicius interfere e diz “ Mamãe, não tem problema, deixa ela brincar.”

Ele abre mão, apenas para não vê-la chorar. De vez em quando não vejo problemas, a União entre eles é tão grande que vale para os dois lados. Mas sempre não posso permitir, mesmo porque Bianca precisa ser orientada, precisa aprender o que pode ou não fazer, precisa desenvolver traquejos para o convívio social.

Disputas por atenção, onde o mais velho reclamando da atenção que você dá ao mais novo, e o mais novo com ciúmes das relações anteriores ao seu nascimento, disputas por brinquedos, por comida, por colo, por quem vê qual desenho e onde, por quem vai dormir ao lado de quem são coisas que fazem parte, ambos estão tentando defender os seus ‘direitos’.

A relação com os irmãos acontece em um contexto bem diferente da relação com os pais, visto que por serem da mesma “geração”, eles se identificam de maneira diferente, estabelecem um contexto que facilita a ajuda recíproca, assistência, colaboração. Juntos, eles desenvolvem um sentimento de “pertencer”, que reflete nas demais relações sociais.

 

Photo Credit: Mariana de Favari Kikuchi

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“A relação entre os irmãos implica um contexto em que através do jogo possa-se elaborar a angústia e desenvolver a criatividade. Além do ensinar e aprender recíprocos, permite também a descarga moderada de agressividade. A possibilidade de exercer essas funções com o conseqüente desenvolvimento de representações vinculares conscientes e inconscientes, implica facilitar o estabelecimento de relações “suficientemente boas” com os pares na vida adulta. Para que os irmãos possam construir um vínculo “suficientemente bom”, é preciso haver uma complementaridade em seus papéis, além da relação de intimidade e certa coincidência em seus valores pessoais. (Goldsmid, 2010).

Ninguém conhece tão bem outra pessoa como seu próprio irmão, pelo menos isso funciona muito bem comigo. Às vezes apenas um olhar ou “oi” via telefone já entrega todo um turbilhão de sentimentos que estamos carregando. Esse conhecimento vem da vivência, dos sentimentos e conflitos da intimidade familiar.

“Mesmo que ao crescer, cada um dos irmãos siga um caminho diferente, a experiência da intimidade compartilhada deixará sua “marca” no inconsciente de cada um deles. O conhecimento da intimidade do outro irmão continuará sendo um legado e um ponto de referência para a própria identidade.” (Goldsmid, 2010).

Photo Credit: Mariana de Favari Kikuchi

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Nessas horas eu acredito que estou no caminho certo, tentando criar laços entre as crianças para que eles saibam que, mesmo na minha ausência ou na ausência do pai eles sempre terão um ao outro. Uma convivência feliz depende muito de nós (pais), então, quanto mais amor e respeito no relacionamento diário, mais isso se amplia, e assim eles poderão levar sempre esse legado nos demais relacionamentos em suas vidas.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

BRITTO, N. Rivalidade fraterna: o ódio e o ciúme entre irmãos. São Paulo: Agora, 2002.

 

GOLDSMID, R. Complexo fraterno: constituição do sujeito e formação do laço social. Psicol.clin. v. 22, n. 1, p. 232-232, 2010.

 

RUFO, M. Irmãos: como entender essa relação. Rio de Janeiro: Nova Fronteria, 2003.

Mariana De Favari Kikuchi

Mulher, pedagoga, esposa apaixonada e mãe de dois tesouros chamados Vinicius e Bianca.

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